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É preciso ir embora.

Antes de vir pra cá estava super nervosa e com muito medo, pois apesar de amar viajar, nunca fiquei tanto tempo fora de casa. Essa é a primeira vez que decidi ficar tanto tempo longe dos meus apegos, mordomias e conforto. Naquela época, em que o medo me dominava, li um texto incrível e resolvi compartilhar com vocês agora. O texto originalmente foi publicado no blog Antônia no Divã e espero que vocês curtam:

Ano passado, na festa de despedida de uma amiga, ouvia calada e com atenção seu dolorido discurso sobre o quanto ela se preocupava com a decisão de ir embora. Dizia se preocupar com a saudade antecipada da família, com a tristeza em deixar um amor pra trás e com a dor de se afastar dos amigos. Ela iria embora para Londres com tantas incertezas sobre cá e lá, que o intercambio mais parecia uma sentença ao exílio.

Dentre dicas e conselhos reconfortantes de outras amigas, lembro-me de interromper a discussão de forma mais fria e prática do que gostaria:

“Quando você estiver dentro daquele avião, olhar pra baixo e ver todas estas dúvidas e desculpas do tamanho de formigas, voltamos a falar. E você vai entrar naquele avião, nem que eu mesma te coloque nele.”

Ela engoliu seco e balançou a cabeça afirmativa.

Penso que na época poderia ter adoçado o conselho. Mas fato é que a minha certeza era irredutível, tudo que ela precisava era perspectiva. Olhar a situação de outro ângulo, de cima, e ver seus dilemas e problemas como quem olha o mundo de um avião. Óbvio, eu não tirei essa experiência da cartola. Eu, como ela, já havia sido a garota atormentada pelas dúvidas de partir, deixando tudo pra trás rumo ao desconhecido. Hoje sei que o medo nada mais era do que fruto da minha (nossa) obsessão em medir ações e ser assertiva. E foi só com o tempo e com as chances que me dei que descobri que não há nada mais libertador e esclarecedor do que o bom e velho tiro no escuro.

Hoje a minha amiga não tem mais dúvida. Celebra a vida que ela criou pra ela mesma lá na terra da rainha, onde eu mesma descobri tanto sobre minha própria realeza. Ironicamente – e também assim como eu – ela aprendeu que é preciso (e vai querer) muitas vezes uma certa distancia do ninho. Aprendeu que nem todo amor arrebatador é amor pra vida inteira. Que os amigos, aqueles de verdade, podem até estar longe, mas nunca distantes. Hoje ela chama o antigo exílio de lar, e adora pegar um avião rumo ao desconhecido. Outras, como eu, e como ela, fizeram o mesmo. Todas entenderam que era preciso ir embora.

É preciso ir embora.

Ir embora é importante para que você entenda que você não é tão importante assim, que a vida segue, com ou sem você por perto. Pessoas nascem, morrem, casam, separam e resolvem os problemas que antes você acreditava só você resolver. É chocante e libertador – ninguém precisa de você pra seguir vivendo. Nem sua mãe, nem seu pai, nem seu ex-patrão, nem sua pegada, nem ninguém. Parece besteira, mas a maioria de nós tem uma noção bem distorcida da importância do próprio umbigo – novidade para quem sofre deste mal: ninguém é insubstituível ou imprescindível. Lide com isso.

É preciso ir embora.

Ir embora é importante para que você veja que você é muito importante sim! Seja por 2 minutos, seja por 2 anos, quem sente sua falta não sente menos ou mais porque você foi embora – apenas sente por mais tempo! O sentimento não muda. Algumas pessoas nunca vão esquecer do seu aniversario, você estando aqui ou na Austrália. Esse papo de “que saudades de você, vamos nos ver uma hora” é politicagem. Quem sente sua falta vai sempre sentir e agir. E não se preocupe, pois o filtro é natural. Vai ter sempre aquele seleto e especial grupo que vai terminar a frase “Que saudade de você…” com “por isso tô te mandando esse áudio”; ou “porque tá tocando a nossa música” ou “então comprei uma passagem” ou ainda “desce agora que tô passando aí”.

Então vá embora. Vá embora do trabalho que te atormenta. Daquela relação que você sabe não vai dar certo. Vá embora “da galera” que está presente quando convém. Vá embora da casa dos teus pais. Do teu país. Da sala. Vá embora. Por minutos, por anos ou pra vida. Se ausente, nem que seja pra encontrar com você mesmo. Quanto voltar – e se voltar – vai ver as coisas de outra perspectiva, lá de cima do avião.

As desculpas e pré-ocupações sempre vão existir. Basta você decidir encarar as mesmas como elas realmente são – do tamanho de formigas.




There are 3 comments

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  1. Bárbara

    Caramba! Que texto!
    Eu também vim para a Aussie fazem 3 meses e tinha exatamente as mesmas preocupações! E hoje tudo isso ficou para trás e já sofro só de pensar em ir embora! Hahaha
    Moro em Brisbane, pertinho de Gold! É bem lindo por aqui tbm!
    Acredito eu que você namora(va) um amigo do meu namorado, ele é de floripa tbm! O nome dele é Gustavo Machado, o alemão do Wake! E vi teu insta quando você postou umas fotos no Solar Mirador no Rosa! A gente também ficou lá e é maraaaa mesmo!
    Aproveite bastante a aussie!!
    Se quiser ver os lugares aqui pra cima que a gente já conheceu, meu insta é @baocastro
    Beijos!

  2. Soane

    Meu Deeeus! O que falar desse texto, que me deixou sem palavras!
    Realmente que texto, te deixa sem ar!
    Me deu vontade de ir embora, de me encontrar, de me perder, na verdade me deu vontade de simplesmente ir…
    Simplesmente perfeita!

    Beijos

  3. Julia Peixoto

    Ah, Luisa, não podia deixar de passar por aqui pra te agradecer… Sempre sofri muito com falta de identificação, sempre fui muito diferente das pessoas que estavam perto de mim e pra compensar, vivia dando fugidas do meu mundinho acompanhando pessoas como você. Isso só me fortaleceu e me inspirou… Posso falar que por causa disso, comecei a realizar meus sonhos e que eles parecem bem mais possíveis que antes, além de que hoje vejo o outro lado do mundo como um lugar bem mais perto!! Então é isso, não pare nunca e lembre-se sempre do bem que você faz pra tanta gente com o que você expõe! Obrigada, obrigada e obrigada!


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